22.6.09

A Estrela



Ora certa noite, e já depois de se ter deitado, a mãe lembrou-se de que se calhar não tinha deixado o lume bem acondicionado para não pegar fogo. Naturalmente, não o apagava de todo para não ter de ir pedi-lo à vizinha, a Pitapota, que fazia sempre um escarcéu medonho, como se lhe estivesse a pedir a alma. Eis senão quando, ao passar ao quarto do filho, viu por debaixo da porta uma risca de luz. Ficou arreliadíssima, como é de ver, com medo de que o filho deitasse fogo à casa. Mas nem rugiu. Queria era apanhá-lo com a boca na botija e mesmo descobrir como é que ele tinha feito lume. Abriu, pois, só uma talisca da porta e espreitou. E então ficou de boca aberta: sentado na cama, o filho tinha a estrela nas mãos. A cara estava toda iluminada, e as mãos era como se tivessem lume por dentro. A mãe nem queria acreditar. Mas depois de se ter admirado, foi-se a ele numa fúria e deitou-lhe a mão à estrela. Mas aqui deu um grito tão alto que o pai acordou. Veio a correr ao quarto do filho e quando chegou já estavam a chorar os dois. Pedro chorava não sabia porquê, nem sabia que não sabia, porque ninguém lhe tinha ainda perguntado. Mas a mãe sabia. A mãe tinha gritado, porque ficara com a mão toda queimada. Atirara logo a estrela, ela caíra no chão. Mas não se partira e alumiava o quarto todo. A mãe continuava a gritar, talvez um pouco mais do que era preciso, segurando a mão queimada com a outra. Até que o pai deu um berro para acabar com aquele chinfrim, que podia acudir a vizinhança. E disse apenas :
-Põe-lhe vinagre. Ata a mão com sal. E quanto a nós, amanhã falamos.
Mas no outro dia quem falou foi a freguesia inteira. E a primeira coisa que disse foi que era inde-cente quererem fazer pouco das pessoas. Porque toda a gente via que a estrela não era aquela. Chamou-se mesmo o latoeiro para dar uma opinião e ele também disse. Não era bem de lata mas de outra coisa esquisita que ele sabia. Agora uma estrela, o que se chamasse uma estrela, toda a gente via que não. E brincar com o parceiro, só no Entrudo.

Vergílio Ferreira, "A Estrela" in Contos



I

1. Divide o texto em momentos e justifica devidamente a tua escolha.

2. Caracteriza globalmente as personagens intervenientes na acção deste excerto.

3.Que importância tinha esta "estrela" para:
3.1. as pessoas da aldeia;
3.2.para os pais de Pedro;
3.3. para Pedro.

4. Que soluções foram encontradas para repor a estrela no seu lugar?


II – Funcionamento da Língua

1.Classifica morfologicamente as seguintes frases:
a. Abriu uma talisca da porta e espreitou.
b. A mãe tinha gritado.

2. Classifica sintacticamente as seguintes frases:
c. A cara estava toda iluminada.
d. Ela caíra no chão.

3. Elabora frases que mostrem claramente a diferença de sentidos entre as palavras homófonas que se seguem .
3.1. aço /asso
3.2. paço/ passo
3.3. era/ hera
3.4. nós/noz
3.5. coser/cozer
3.6. sem/cem
3.7.acento/assento
3.8. conselho/ concelho
3.9. vós/voz

4. Redige uma frase para cada uma das palavras seguintes, esclarecendo devidamente o seu sentido.
4.1. comprimento /cumprimento
4.2. emigrante/ imigrante
4.3. descrição/ discrição



III – EXPRESSÃO ESCRITA

Imagina o diálogo que terá ocorrido entre a mãe do rapaz e o pai a propósito deste incidente.