31.12.08

O Colar



“Vanina:
- Disse-te que gostava de ti com todo o meu coração. Não quero compromissos, nem quero coisas duvidosas. Tu não compreendes que depois de ter passado este tempo todo a pensar em ti, eu vou endoidecer por tu ficares noivo de outra mulher?
Pietro:
- Apaixonares-te por um homem que viste só uns instantes é uma coisa que não existe. É uma história dos romances de cavalaria.
Vanina:
- Eu sou como os romances de cavalaria.
Pietro:
- Só me viste um instante. O que tu viste foi o próprio brilho da tua juventude, a rosa muito vermelha e muito perfumada.
Vanina:
- Então porque cantaste com tanta paixão por debaixo da minha varanda naquela quinta-feira?
Pietro:
- Porque é assim que se cantam as serenatas.
Vanina:
- Eu não vivo de acordo com os costumes, eu vivo de acordo com os meus sentimentos.
Pietro:
- Eu sou um homem, e não se brinca com um homem.
Vanina:
- Mas eu não brinquei contigo!
Pietro:
- Não brincaste? Deste-me um beijo infinito, que veio até ao fundo da minha garganta e agora queres-me obrigar a cumprir o que eu não devo!
Vanina:
- O amor é uma coisa séria e deste-me um beijo apaixonado.
Pietro:
- Ai, querida! Eu apaixono-me por todas as mulheres que vejo. Tu imaginas tudo. Dei-te uma rosa e disse-te um piropo e tu imaginaste que eu era o teu Romeu.
Vanina:
- Estás a fazer troça de mim.
Pietro:
- Não. Estou a ensinar-te o que é a vida. É muito perigoso não saber o que é a vida.
Vanina:
- Há tanto tempo que só penso em ti! Isso não é a vida?
Pietro:
- Não.
Vanina:
- Então o que é que fizeste todo o tempo?
Pietro:
- Por que havia eu de me apaixonar por uma menina que só tinha visto um instante?
Vanina:
- Eu apaixonei-me por ti no instante em que te vi. Porque eras tu, porque eras pálido como o luar e misterioso e brilhante e belo como a noite.
Pietro:
- Falas como um romance e como uma balada. A vida não é assim!
Vanina:
- Apaixonei-me pela tua voz que é cheia de luz e sombras.
Pietro:
- Bem, isso é mais lógico e mais real. Mas em Veneza todas as mulheres estão apaixonadas pela minha voz.
Vanina:
- Todas?
Pietro:
- Sonhaste, imaginaste mil fantasias.
Vanina:
- E tu que é que fizeste? Namoraste todas as mulheres bonitas que encontraste?
Pietro:
- Todas! Tive (e conta pelos dedos) vinte e seis namoradas desde que nos vimos, imagina.
Vanina:
- Ai de mim! Não te lembravas às vezes de mim?
Pietro:
- Não, a minha vida tem sido difícil e cheia de problemas. Mas quando cantei para ti, na serenata encomendada, reconheci-te e gostei de te reconhecer.
Vanina:
- E quando soubeste que vinha cá jantar hoje?
Pietro:
- Isso para mim foi uma ocasião de ganhar dinheiro. Sou um cantor profissional – não engano ninguém porque canto bem.
Vanina (depois de um silêncio):
- Quero dizer-te um poema e depois não tenho mais nada a dizer.
Reconheci-te logo destruída
Sem te poder olhar porque tu eras
O próprio coração da minha vida
E eu esperei-te em todas as esperas
Pietro:
- É muito bonito, um pouco metafísico. Faz-me medo. Vanina, eu não quero abusar da tua inocência. Que faria eu com a tua inocência?
Vanina:
- Então adeus, Pietro.”

O Colar, Sophia de Mello Breyner.
Editorial Caminho, 2005, pp.65 a 69.



I

1. Situa o excerto apresentado dentro da obra, identificando o momento da acção.

2. Diz porque razão Pietro já não é um homem livre.

3. As personagens têm diferentes perspectivas sobre o seu relacionamento. Explica por palavras tuas a visão de cada um, dando dois exemplos do texto.

4. “Eu não vivo de acordo com os costumes, eu vivo de acordo com os meus sentimentos”.
Tendo em conta o percurso de Vanina ao longo da peça, explica a sua afirmação.

5. Observando as seguintes falas de Vanina, consideras que esta personagem se apaixonou realmente por Pietro? Justifica a tua resposta.
“Eu apaixonei-me por ti no instante em que te vi. Porque eras tu, porque eras pálido como o luar e misterioso e brilhante e belo como a noite. (...) Apaixonei-me pela tua voz que é cheia de luz e sombras”.

II

1. Altera as seguintes falas do discurso directo para o discurso indirecto:
a) “Vanina:
- Disse-te que gostava de ti com todo o meu coração. Não quero compromissos, nem quero coisas duvidosas. Tu não compreendes que depois de ter passado este tempo todo a pensar em ti, eu vou endoidecer por tu ficares noivo de outra mulher?”

b) “Pietro:
- Não, a minha vida tem sido difícil e cheia de problemas. Mas quando cantei para ti, na serenata encomendada, reconheci-te e gostei de te reconhecer.
Vanina:
- E quando soubeste que vinha cá jantar hoje?”

2. Atenta na seguinte citação e responde às perguntas:

"Pietro:
- Ai, querida! Eu apaixono-me por todas as mulheres que vejo. Tu imaginas tudo. Dei-te uma rosa e disse-te um piropo e tu imaginaste que eu era o teu Romeu."

Que registo de língua é utilizado por Pietro e Vanina quando se dirigem um ao outro?

Ao longo da obra O Colar, podemos encontrar diversas marcas de expressividade e recursos estilísticos. Existe, em todo o texto, uma preocupação estética. Tendo isso em conta, indica o registo de língua que está presente na globalidade da obra.

3. Indica a palavra primitiva que dá origem ao verbo “endoidecer”.
Diz por que processos se formou esse verbo.

4. Escreve duas palavras compostas por aglutinação, seguindo o exemplo.
Ex.: aguardente.


III

Lê o texto com atenção.

“Vanina sacudiu os cabelos e disse-lhe:
-Hoje não me possso pentear porque não tenho pente.
-Tens este que eu te trago e que mesmo feito de oiro brilha menos do que o teu cabelo.
Então Vanina atirou-lhe um cesto atado por uma fita onde Guidobaldo depôs o seu presente.
E daí em diante a rapariga mais bela de Veneza passou a ter um namorado.
Quando esta notícia se espalhou na cidade os amigos do capitão foram preveni-lo de que estava a arriscar a sua vida, pois Orso não lhe perdoaria. Mas ele era forte e destemido, e sacudiu os ombros e riu. Ao fim de um mês foi bater à porta do tutor.
-Que queres tu? – perguntou o velho.
-Quero a mão de Vanina.
-Vanina está noiva de Arrigo e não há-de casar com mais ninguém. Sai depressa de Veneza.
Tens um dia para saíres da cidade. Se amanhã ao pôr do sol ainda não tiveres partido eu mandarei sete homens com sete punhais para te matarem.
Guidobaldo ouviu, sorriu, fez uma reverência e saiu.
Mas nessa noite, no silêncio da noite, a sua gôndola parou junto da varanda da casa de Orso. De cima tiraram um cesto preso por uma fita e dentro dele o jovem capitão depôs uma escada de seda.
O cesto foi puxado para a varanda, e a escada, depois de desenrolada, foi atada à balaustrada de mármore cor-de-rosa. Então, ágil e leve, Vanina desceu com os cabelos soltos flutuando na brisa.
Guidobaldo cobriu-a com sua capa escura, e a gôndola afastou-se e sumiu-se no nevoeiro de Outubro.“


Sophia de Mello Breyner, O Cavaleiro da Dinamarca, Figueirinhas.


1. A história acima descrita faz parte da obra O Cavaleiro da Dinamarca e consiste num texto narrativo. Fazendo as alterações que consideres necessárias, transforma este excerto num texto dramático.